terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)


Finalmente, tive prazer de assistir ao novo filme de Fernando Meirelles em sua pré-estréia aqui no Brasil. O filme, que emocionou José Saramago em sua premiere em Lisboa, é a reiteração de que Meirelles é um dos grandes nomes mundiais no que diz respeito a fotografia cinematográfica. Desde o icônico Cidade de Deus, o estilo de filmagem do diretor brasileiro caracteriza-se por influir direta e ativamente na própria narrativa, explorando diferentes recursos visuais para enriquecer a experiência do espectador. A preocupação com como construir cenas e apresentá-las ao publico é cuidadosamente trabalhada, e redefine todo o contexto e o sentimento de uma obra. Na humilde opinião do autor deste texto, este é o ponto visceral da arte de fazer cinema.
Porém nem tudo são flores, e a literatura e o cinema são meios completamente distintos. Toda adaptação de um meio para outro é de algum modo enriquecida e de algum modo empobrecida. O livro de Saramago, no qual o filme é inspirado, é uma das leituras mais belas e delicadas que tive o prazer de fazer. Não estaria arriscando uma breve critica literária se não fosse relevante para a análise do filme, e neste caso a sensação de que muito do livro está sendo perdido na adaptação, de que toda a poesia densa que é a escrita de Saramago não consegue ser transmitida na tela, talvez acabará por muitas vezes deixando, naqueles que tiveram o prazer de ler o livro antes de ver o filme, uma sensação de vazio que pode acabar prejudicando o filme como um todo. Meirelles faz uma adaptação bastante fiel ao livro, e talvez nisso esteja o maior problema do filme.
Tudo isso porém é esperado, e o filme na análise conjunta se mantém de pé, apoiado não só na direção criativa de Meirelles, mas também em atuações sólidas e, acima de tudo, adequadas. Julianne Moore está em harmonia perfeita com seu personagem, e realmente parece sentir tudo aquilo que transmite. Mark Ruffalo, Danny Glover e Alice Braga exprimem tanta personalidade aos seus personagens quanto eles realmente têm no livro, fazendo uma caracterização bastante fiel e segura dos mesmos. A trama está, em uma relação metalinguística com a habilidosa câmera, nebulosa e obscura, e é curiosamente a parte que mais se fragiliza, pois não tem todas as raízes e desenvolvimentos que a amarram no livro. Ao todo, é um filme tecnicamente muito bem executado e relativamente profundo, mas que não deve agradar aos espectadores mais acostumados ao formato tradicional de produções Hollywoodianas (e, valha-se de nota, apesar de ser uma produção de grande orçamento, o filme não possui ligações com Hollywood).
Parabéns a Fernando Meirelles por mais uma vez conquistar meu respeito e admiração.

domingo, 7 de setembro de 2008

Trovão Tropical (Tropic Thunder)


Ben Stiller não é dos meus atores de comédia favoritos. Ele tem seus momentos, mas não considero ele um cara muito engraçado. Como diretor, até então ele havia sido ligeiramente pior, com o desastroso "O Pentelho" de 1996, é talvez a maior mancha negra na carreira de Jim Carey, então o grande nome da comédia, que depois desse filme decidiu arriscar algumas coisas mais sérias. Stiller então começou a entrar no campo onde ele realmente brilha: A paródia. Sua sátira do mundo da moda, Zoolander, ainda que deixe muito a desejar, tem seus momentos. Com Trovão Tropical, ele decide parodiar a si mesmo, e toda a máquina de Hollywood. Com roteiro também assinado por ele o filme era bastante promissor. O resultado é uma trama mediocre, porém com sacadas inteligentes e atuações de destaque, como Robert Downey Jr. e Tom Cruise. Ambos estão, e temo que o termo ainda seja um pouco eufemístico, BASTANTE distantes de seus papéis habituais. O filme vale a sessão só por esses dois. Jack Black, um grande nome da comédia, tem um papel de pouco destaque e fica apagado por boa parte do filme. Embora o filme nunca chegue a ter uma cena ou tirada verdadeiramente marcante, é uma ótima diversão e uma opção agradável para quem gosta de um humor satírico e politicamente incorreto.

O Procurado (Wanted)


Quão rápido um filme consegue passar de um agradável entretenimento de domingo a tarde a uma experiencia cinematográfica constrangedora? A resposta: O tempo que demora para o espectador perceber que o filme se leva a sério. O clima surreal da trama é muito bem digerido, até o ponto em que o filme começa a tentar passar uma mensagem, em meio a balas entortadas, carnificina e ação frenéticas. A lógica do filme é contraditória dentro dela mesma, e a impressão que me passou é que nem os roteiristas nem o diretor tinham uma idéia clara do que eles queriam fazer. Não há muito o que dizer do filme, James McAvoy está tentando seu melhor para se estabelecer como um novo rosto de Hollywood, o que é valido talvez pois já provou ser um ator talentoso. Angelina Jolie está mais uma vez no papel da bela e perigosa mulher que ja vimos tantas vezes antes. Talvez por estar tão acostumada com o papel, consegue uma atuação chamativa. Morgan Freeman é o Morgan Freeman de sempre, e também me deixou com a sensação de que já tinha visto aquele personagem antes. Se a ideia do programa é ver cenas de ação inacreditáveis, O Procurado funciona. Mas para qualquer outro efeito, passe longe.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)

*Aviso: Post contém spoilers do filme.*

Quando um filme começa a receber muito hype por um determinado aspecto em particular, especialmente enquanto ainda em fase de produção, não é incomum que tudo comece a rodar em volta do foco, e o resultado final seja algo em que o todo se sustenta por um único fator, e em geral o filme acaba por ruir. Esse era o meu medo quando, com Heath Ledger ainda vivo, comecei a escutar boatos de que ele estava fazendo um trabalho com o personagem Joker que rivalizava seu último antecessor no papel, o naturalmente lunático Jack Nicholson. Só para tirar isso do caminho, não acho a discussão sobre qual Coringa é melhor muito válida. Dois filmes feitos com quase 20 anos de distância um do outro, as mudanças que aconteceram no cinema e no mundo tornaram as duas versões de um mesmo personagem incrivelmente distantes. Depois da morte de Ledger, o hype aumentou ainda mais, alimentado pelos boatos de que o ator teria ficado mentalmente perturbado com o personagem e isso teria o levado a sua morte. A atuação dele é tudo isso que dizem e mais, e consigo entender perfeitamente Michael Caine quando disse que, na cena em que o Coringa vai até a casa de Wayne e se depara com Alfred, Caine que até então não conhecia Ledger ficou tão assustado que esqueceu suas falas. Heath Ledger teve a sorte de encarnar um dos personagens mais interessantes da mitologia contemporânea, fez isso com maestria e seu legado não poderia ter sido encerrado de maneira melhor. Mas voltando ao filme.

Como de costume, não poderia ter ficado mais feliz de ver que o Coringa de Ledger é a cereja no topo, o prato principal de uma refeição cinematográfica deliciosa. Depois do 11/09, o cinema Hollywoodiano abriu espaço novamente para os super-heróis. Novas abordagens, e um mundo muito mais denso e simbólico, personagens mais complexos, a figura do herói (e consequentemente do vilão) deixou de ser algo plano e ganhou vida, motivos, dúvidas.

Cavaleiro das Trevas é um jogo de opostos, e você tem em um extremo Batman, um personagem atormentado com o fardo da ordem, sério, sombrio, e no outro extremo temos o Coringa, o insano vilão que não parece ter uma única preocupação na cabeça, que é o símbolo do caos. Desde a apresentação com cores vibrantes, personalidade, até seus valores, um é a versão espelhada do outro, e muitas vezes acabam por fazer a mesma coisa em sentidos inversos. Ambos tentam inspirar a população por meio de exemplos, seja de que a ordem existe ou que o ser humano é naturalmente mal. Ambos têm valores morais que impedem que eles se anulem mutuamente. Tudo isso é explicitado em um sensacional diálogo entre os dois, em que o Coringa está de cabeça para baixo e Batman de pé, e através de um efeito de câmera vemos a poesia que está por trás da cena. (Aliás, todas as cenas em que Batman e o Coringa conversam são pérolas. Pensando melhor, todas as cenas do Coringa são pérolas). No meio do conflito está Harvey Dent, o procurador geral de Gotham City brilhantemente interpretado por Aron Eckhart, que descreve um arco de queda, nesse caso, das trevas até a luz, e acaba literalmente dividido entre o bem e o mal. Sua moeda, que como se descobre mais pra frente é muito apropriada, representa seu personagem. Inicialmente uma figura de ordem, íntegra, tanto Harvey quanto a moeda "perdem" um de seus lados, e o que sobra no lugar é o caos plantado por (e não poderia ser outro) Coringa. A simbologia de Harvey é talvez a mais evidente, um homem com fortes valores morais e tudo a perder de um lado, e de outro um homem destruído, insano levado a seus limites por uma perda imensa. Existe muito mais para se ver em Batman, desde atuações incríveis ainda não citadas, como as de Gary Oldman e Michael Caine, até objetos e símbolos que podem passar despercebidos. Um filme poético e profundo, porém um tanto quanto longo. Ainda assim, o tipo de filme que vale a pena rever quantas vezes quiser.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Wall-E

Não deixe o fato de Wall-E ser uma animação da Pixar te enganar: esse é um belíssimo filme. Acima de tudo, e o principal motivo pelo que se deve assistir, é algo diferente. Não consigo nem imaginar o tamanho do desafio de criar uma trama dentro das limitações da temática do filme. Os dois protagonistas não conseguem falar mais do que uma ou duas palavras, e a primeira vista parece difícil colocar linguagem corporal num robô em forma de caixa. A trama é incrivelmente simpática e ao mesmo tempo pode-se dizer que toca em questões relevantes da nossa sociedade. É uma visão bastante pessimista do futuro, porém tudo é apresentado com leveza e bom humor. Wall-E é um filme obrigatório, que teve um lançamento bastante prejudicado no Brasil pelo inferior Kung-Fu Panda (criticarei na semana que vem) mas que ainda se pode encontrar em alguns poucos cinemas da cidade em cópias legendadas (não assisti a versão dublada, mas acredito que não é TÃO insuportável assim). Independente de quem você é ou qual o seu propósito no cinema, Wall-E é uma escolha 100% segura. Uma animação imperdível.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Agente 86 (Get Smart)

Missão Impossível, As Panteras, Perdidos no Espaço. Remakes estão em moda em Hollywood, mas adaptações de séries antigas para a telona já estão por aí faz um bom tempo. O agente 86 é uma daquelas séries que há muito implorava por uma adaptação as telas. Por mais de 10 anos o projeto rodou na mão de muitas pessoas. Em certo ponto, Jim Carey protagonizaria o filme. Graças a Deus, o projeto foi adiado e adiado e Steve Carell apareceu. Ele é perfeito para o papel de Maxwell Smart.
Confesso que quando vi os trailers, uma pontinha de mim tinha medo de que iria ao cinema já tendo visto todas as cenas boas. Definitivamente não foi o caso.
Em uma nota bastante particular, é incrível como a sua companhia e as pessoas ao seu redor afetam a experiência da tela. Lembro-me de quando fui assistir Menina de Ouro, tive a infelicidade de me sentar ao lado de um senhor que comentava e ria sonoramente de tudo. Sem exageros, acho que todos podem imaginar o quão dificil é apreciar um filme e se sentir imerso numa trama extremamente sensível e dramática com alguem ao seu lado dizendo algo do tipo "A menina se deu mal. Hah!". Quando estava no cinema vendo Agente 86, tive meus primeiros 15 minutos de filme arruinados por uma moça e seu colega, que se sentaram ao meu lado e decidiram cantar e reger a música tema do filme, exclamar em alto e bom tom coisas como "Ai que tonto!" e "Não acredito que ele fez isso!". Por isso, decidi tomar um paragrafo da minha critica para fazer um pedido, encarecidamente: Respeito aos outros dentro da sala de cinema é fundamental. Não sejam inconvenientes. Prefira assistir um filme em casa, se você é do tipo que não consegue se segurar.
Tudo isso que escrevi não apenas foi para fazer um outro ponto não relacionado, mas para ilustrar algo relevante à critica. Depois de algum tempo, os dois rapazes estavam tão ocupados rindo (junto comigo e o cinema inteiro) que não conseguiam mais comentar. Hype (comentários, foco, atenção demasiada) é algo que atrapalha especialmente filmes de comédia (quantas vezes vocês não tiveram um amigo que lhes disse "esse filme é o filme mais engraçado que eu já vi", e a expectativa foi tão grande que você mal conseguiu dar um sorriso durante o filme), então tentem não levar tão a sério quando digo que é uma comédia excepcional, que me fez rir bastante durante duas horas. O filme mantém o tom original da série e qualquer um que aprecia essa ou qualquer outra obra de Mel Brooks certamente vai se sentir em casa. É um filme que recomendo a todos como entretenimento de primeira, em seu estado mais puro. Diversão garantida.

O Incrível Hulk (The Incredible Hulk)

Há algum tempo atrás, os estúdios Marvel adquiriram de volta os direitos autorias sobre a produção de diversos de seus super-heróis. O primeiro filme produzido independentemente pela Marvel (e destribuido pela Paramount) foi Homem de Ferro, que há pouco tempo atrás e não decepcionou os fãs e até agradou os que não eram muito chegados (crédito vai para Robert Downey Jr. e seu carisma). Aparentemente, os estúdios da Marvel possuem os direitos autorais sobre todos os Vingadores originais (Homem de Ferro, Hulk, Capitão América, Thor e Ant-Man) e pretende fazer filmes individuais com cada um deles para depois juntá-los num grande "The Avengers", previsto para 2011. Tudo está sendo montado no sentido de unificar o universo Marvel nas telas,, Samuel L. Jackson fez um cameo como Nick Fury depois dos créditos de Iron Man e ja assinou contrato para voltar em outras aparições. Downey Jr. aparece brevemente nesse filme como Tony Stark, e por assim vai.
O grande problema que a Marvel teve de enfrentar até agora foi, o fiasco estrondoso e monumental de "Hulk" (2003). Parte da equipe que estão tentando levar as telas, o monstrão decepcionou na versão de Ang Lee. Depois de muita discussão, foi decidido por um mix de "sequência" e "reboot (algo similar ao que foi feito com o Batman, um novo filme que gera uma serie nova completamente independente da antiga)" onde pode-se tomar o filme como marco zero para o Hulk, mas ao mesmo tempo não aborda as questões da origem do super-herói, já tratadas no outro filme.
Dois pontos interessantes, dignos de nota: o primeiro é o envolvimento de Edward Norton, que além de protagonizar o filme exigiu liberdade para dar "pitacos" no roteiro, reescrevendo partes, adicionando personagens e mexendo na historia em geral. Outro é a escolha de filmar os primeiros 20 minutos de filme na favela da Rocinha, com alguns atores brasileiros (outros atores foram dublados depois e o resultado final é desastroso para os espectadores daqui.)
Tudo isso dito, o filme é claramente superior ao anterior. Enquanto o monstro ainda pode receber diversas críticas por não se assemelhar em nada com Norton, pelo menos ele está mais real e não parece tão visualmente errado. O casting está muito bom, William Hurt, apesar de não brilhar, cumpre as exigências, Liv Tyler consegue com alguma dificuldade se igualar a Bety Ross de Jennifer Connely e Tim Roth, um dos meus atores favoritos, faz uma aparição sensacional e consegue ter quimica em cena até com o Hulk. Nem falo de Norton, ele é genial em qualquer papel.
Apesar disso, o filme tem seus defeitos e a trama não é lá essas coisas. Definitivamente é um filme para ser visto pelos fãs de super-heróis e Marvel. O resto pode deixar ele pra depois. Não vão perder muito.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kindom of the Crystal Skull)


Preparem o chicote e o chapéu, Dr. Henry Jones está de volta! Quase duas décadas depois, o trio George Lucas, Steven Spielberg e Harrison Ford se juntam para mais uma aventura em busca de algum artefato perdido. Depois dos remakes infindáveis dos últimos anos (King Kong, The Producers, Saída de Mestre, Guerra dos Mundos, Poseidon etc), agora a nova moda de Hollywood é revisitar uma série dos anos 80 ou 90 (Rocky, Rambo, Duro de Matar, Alien) e essas novas versões em geral não se atualizam e tentam manter a fórmula original, ou então tentam conciliar algo novo com algo velho, e o resultado geralmente é medíocre. Indiana Jones aposta todas as suas fichas na nostalgia, e o resultado é um tributo à trilogia original, que só sobrevive às custas de seus predecessores. Para um fã da série original como eu, o sentimento de nostalgia aparece, mas requer certo esforço. Para um espectador que não viu os filmes anteriores ou não se interessou muito, a sensação deve ser de um filme ultrapassado, com clichês e situações que os filmes de hoje em dia evitam. O fator sobrenatural da série foi beber de outra fonte dessa vez, mas os fãs não vão se importar e os não-fãs podem nem perceber. O filme foi escrito por George Lucas, que consegue piorar cada vez mais com o tempo (o ultimo filme da nova trilogia Star Wars se salva, mas pode ter certeza que não é pelo roteiro). Todo mundo parece estar lá para relembrar os velhos tempos, mas talvez os tempos de Indy Jones já se foram. Sean Connery não quis sair da aposentadoria nem para fazer uma aparição rápida (novamente como o Jones Sr). Isso não impede o filme de homenageá-lo numa menção rápida e pouco relevante mas digna de nota. Bonitinho. Se você for no cinema como eu, querendo relembrar o bom e velho Indy, e não estiver esperando muito, pode não se decepcionar, e até gostar um pouco. Mas não é de maneira alguma um filme imperdível. Nem imagino que ambicione ser, também.

domingo, 25 de maio de 2008

Uma cena sublime

Esse vídeo me foi mostrado por um amigo meu do izzyjuice.wordpress.com e leitor aqui do blog (o mesmo video está no site dele, muito legal por sinal) e mostra a tocante reação de José Saramago ao final do filme "Ensaio Sobre a Cegueira" de Fernando Meirelles (sentado ao seu lado no vídeo), que é baseado no livro de mesmo nome publicado por Saramago.



Alguém também ficou com vontade de assistir? A estréia está prevista para dia 12 de setembro aqui no Brasil.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Quebrando a Banca (21)


Quebrando a Banca é um filme baseado no livro homônimo sobre um grupo de jovens do MIT que bolam um esquema para, como o titulo sugere, quebrar a banca dos cassinos em Las Vegas. A premissa de um método infálivel para ganhar dinheiro no Blackjack já foi o suficiente para me atrair ao cinema, principalmente quando é baseada numa historia real. O diretor não possui muito no seu currículo (Legalmente Loira e Até Que a Sogra nos Separe, filmecos inexpressivos com tramas bobinhas, mas que conseguem entreter na maneira mais rasa possível) mas o suficiente para ter uma ideia do que esperar. Quebrando a Banca se encaixa nessa fórmula, mas consegue superar os trabalhos anteriores. Jim Sturgess (do filme Across the Universe que eu quero assistir assim que possível) me parece um cara simpático, ele comecou a aparecer em filmes agora e está indo no caminho, em produções facilmente digeríveis como essa. Kate Bosworth foi uma escolha imperdoável, com apenas 25 anos ela já nao convence nada como uma aluna de 21 (coitada, está mais para 30 e poucos). Laurence Fishburne e Kevin Spacey aparecem um pouquinho, e não se saem tão mal. O filme entretêm por duas horas, funciona como deveria funcionar, talvez eu tenha saído com uma vontade ligeira de chamar uns amigos meus que fazem exatas e ir pra Vegas, mas daqui a uns 3 meses já não vou mais me lembrar dele. Ainda assim, se você estiver com uma tarde livre para gastar, Quebrando a Banca é uma escolha garantida de um filme fácil, gostosinho e divertido.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Shine a Light



Não é segredo para ninguém. Martin Scorcese é um cara bastante ligado na musica pop. Ainda está fresco na minha memória a gostosa trilha sonora do ultimo filme dele, Os Infiltrados. Bob Dylan, Michael Jackson e futuramente George Harrison, integram a lista de artistas que já trabalharam com ou tiveram seu trabalho registrado por Scorcese. Quando ele resolve (atenção para o jogo de palavras) jogar uma luz no trabalho de Mick, Keith e cia, o resultado para mim foi um pouco... frustrante.
Antes de mais nada, gostaria de dizer que eu fui ver Shine a Light com uma ideia completamente diferente do que seria o filme. Esperava um documentário acompanhando a trajetória da banda ao longo dos anos, com cenas de shows e afins. O filme na verdade é uma edição de duas horas de um show beneficiente que os Stones fizeram em Nova Iorque durante a turnê de lancamento do ultimo álbum, A Bigger Bang, em 2006, permeado por pequenas cenas antigas de entrevistas ao longo das ultimas décadas. As cenas são escassas e só serviram para deixar um gosto de "quero mais" na minha boca, que tive que engolir azedamente ao final da sessão. Gostaria de poder dizer que é um filme restrito a fãs dos Rolling Stones mas mesmo eu que sou grande fã não gostei do resultado. Para quem gosta do som deles, a minha recomendação é exatamente oposta à que dei na ultima critica: Espere e compre o DVD (Desnecessário falar, quem não é fã nem deve considerar). Como um DVD de show, ele é incrivelmente bem excecutado, passando um clima íntimo e visceral à sempre eletrizante performance dos dinossauros do rock (para quem falou que eles estavam acabados, engula suas palavras). Apreciado pelo que é, um show dos Stones praticamente na íntegra, o filme realmente (tou inspirado hoje, desculpem) brilha. Mas cuidado ao assistir. Pode ser para você, como foi para mim, uma grande decepção.

Na Natureza Selvagem (Into the Wild)


O filme ainda está em cartaz, então vou comentar. Eu preciso.

Na Natureza Selvagem foi o filme mais injustiçado do ano passado. O primeiro filme de Sean Penn como diretor foi exibido aqui no Brasil durante a Mostra de Cinema no ano passado, e depois estreou em meados de fevereiro em circuito pequeno, e continua em cartaz até agora no Cine Bombril. Ninguém percebeu. O Oscar não deu sinais de interesse, teve duas indicações bastante discretas, e mais nada. E ninguém percebeu. Ninguém percebeu que esse filme é uma obra prima, de uma sensibilidade e refinamento ímpar.
Quando assisti o filme na mostra, fui chamado por um amigo que me disse: "É um filme dirigido pelo Sean Penn sobre um moleque, parece bacana." e essas eram as informações que tinha. Cheguei lá e foi uma surpresa atrás da outra.
Sean Penn fez uma direção brilhante, porém o crédito maior deve ser dado a uma serie de decisões incrivelmente acertadas da parte do diretor/produtor/escritor. O primeiro acerto de Penn está na trama. O filme é baseado no livro best-seller de John Krakauer, Into the Wild, que relata a história real de Christopher McCandless e sua jornada de auto-descobrimento. O segundo acerto foi o de filmar a grande maioria das cenas in locus, ou seja, no local onde elas realmente aconteceram. Sua terceira e maior acertada na mosca foi o casting. Emile Hirsh, que até então só tinha se destacado no filme Alpha Dog e no bobinho e divertido The Girl Next Door (Show de Vizinha) mostra aqui todo o seu talento e se afirma, pelo menos no meu caderninho, como uma das grandes promessas da nova geração de atores. Uma atuação impecável e de uma seriedade e comprometimento visíveis (o ator perdeu quase 20 quilos durante a filmagem) para mim foi uma grande decepção o fato de que ele não recebeu a indicação ao Oscar, pois seu trabalho na minha opinião rivaliza até o do ganhador desse ano Daniel Day-Lewis (em Sangue Negro). William Hurt, Marica Gay-Harden e Jena Malone interpretam a família de Chirstopher e, com exceção do primeiro, estão bem porém não brilhantes. Vince Vaughn está carismático como sempre numa rápida e divertida aparição, e Hal Holbrook, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, discretamente traz o cinema abaixo. Só sou obrigado a torcer o nariz, mais por força de costume do que qualquer outra coisa, à chatinha Catherine Keener, que não consigo gostar por nada. Mas dessa vez, ela não chega a incomodar, como a hippie que cruza seu caminho com Chirstopher em alguns momentos de sua viagem.
O terceiro acerto, e a cereja no topo do bolo, vem com a escolha da trilha sonora, composta quase que inteira por Eddie Vedder, um violão, e só (o CD solo do vocalista do Pearl Jam, homônimo ao filme, vale muito a pena).
A soma de todos esses acertos aliados à enigmática figura de Christopher McCandless, sua história e seus ideais profundos, fazem desse filme um espetáculo imperdível, uma verdadeira aula de Como Fazer Cinema. Não espere para alugar o filme em DVD. Se você quer ir ao cinema e quer fugir de um simples entretenimento, assista Na Natureza Selvagem enquanto pode.

domingo, 11 de maio de 2008

Nota rápida

Só achei que eram dois comentários dignos de serem feitos. Peço a todos que lêem esse blog (mesmo que vocês nunca concordem comigo numa só sequer crítica) que prometam a vocês mesmos NUNCA mais fazer nota das estrelinhas ou bolinhas ou qualquer tipo de classificação que o jornal, revista, site, faz dos filmes. Cinema é uma arte. É um absurdo querer classificar uma obra de arte com uma nota de um a cinco ou o que quer que seja. Muito menos dá pra usar isso pra comparar filmes entre si ("vou ver esse porque é 4 estrelas, o outro é só 2").
O outro é que eu geralmente evito comentar sobre pontos da trama, mesmo que seja uma por cima, a não ser que seja estritamente relevante. Eu pessoalmente odeio spoilers e me irrito profundamente quando um jornal comenta pontos-chave da trama na resenha. Então podem ler tranqüilos as criticas aqui, eu vou sempre escrever tendo em mente alguém que ainda não viu o filme.

Bom... é isso.

O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream)


Woody Allen pode se rotular, filme após filme, como um frangote patético impotente e neurótico, medroso e estúpido, mas verdade seja dita: Ele tem um pique invejável (digo isso com todo o amor ao velhinho).
Aos 72 anos, o rei do humor judaico continua um dos diretores mais ativos da atualidade. Nas ultimas 4 décadas (!!!) ele nos deu uma média de um filme por ano (eu conferi no IMDb - de 1971 pra cá ele dirigiu nada mais nada menos que 40 filmes, contando o ainda inédito Vicky Cristina Barcelona). Num ritmo desses, é mais do que esperado que nem tudo seja flores, e tivemos por aí alguns deslizes. Scoop, de 2006, foi um deles. Melinda e Melinda, 2004, foi outro. Igual a Tudo na Vida, 2003, mais um. Você começa a se perguntar se são somente deslizes ou se o cara está perdendo a mão. Eu ia entender perfeitamente, 40 anos fazendo filmes freneticamente, a criatividade fica meio gasta.
Mas Woody, o mais improvável de todos, no momento menos esperado, decidiu se reinventar. Ele, que dificilmente saía de Nova York, resolveu fazer um filme ambientado na Inglaterra. E ainda mais, um filme sério. Era Match Point, uma brilhante homenagem a Dostoievsky (não me peçam pra soletrar, eu mal sei a grafia correta do meu sobrenome) e com uma trama cheia de ironias e reviravoltas que só ele saberia fazer.
Três anos depois ele nos traz O Sonho de Cassandra, também ambientado na Inglaterra, e com um tom ainda mais sombrio que Match Point. Foi na mira.
Contudo, ele fraquejou. Pra bem, mas fraquejou. Pitadinhas de humor negro pontuam o filme aqui e ali, lembrando-nos que é o Sr. Allen que estamos assistindo, tirando sarro da vida e do existencial.
A trama é bastante linear e bem amarrada, mas o foco está nos personagens. Ewan McGregor e Colin Farrel são dois irmãos que se transformam drasticamente ao longo do filme, junto com a figura incrível de seu tio, papel que coube a Tom Wilkinson, a surpresa inesperada que quase roubou os holofotes de Clooney em Michael Clayton. McGregor atua impecavelmente, mas o destaque é de Farrel, que havia tempos não mostrava seu potencial preferindo fazer performances opacas em filmes medíocres. Mas não desta vez. Me lembrou de Por um Fio, filme que lançou a carreira dele. Desde lá não via tamanho show do irlandês.
Por fim, vale destacar a atenção à trilha sonora que foi dispensada por Woody. Ele, que ama jazz e até toca clarinete numa banda, usa-se de uma trilha sonora quase tétrica para passar a atmosfera sufocante que estão inseridos seus personagens. E funciona com impressionante precisão. Pra quem gosta de Woody Allen, obrigatório. Pra quem não gosta, vá e aprenda a gostar. O frangote (quem diria) ainda tem gás.

Speed Racer


Speed Racer é o filme que decidi usar para iniciar o blog. Pode parecer meio frustrante para alguns, mas é que eu acabei de assisti-lo e estou com ele fresco na minha memória, então acho que vai ser mais fácil.

Ainda que tenham tido suas derrapadas, Larry e Andy Watchowski criaram uma nova linguagem cinematográfica. O primeiro filme da trilogia Matrix (e o único que vale a pena) é uma obra prima que transmite uma trama de grande conteúdo filosófico numa linguagem moderna e acessível. É um filme grandioso sem nem levar em conta a inovação visual que ele trouxe (o Bullet-Time que foi copiado ad nauseum por todos os filmes de ação da ultima década).
V de Vingança, escrito e produzido pela dupla, serviu mais como uma redenção aos irmãos perante Holywood, após a decepcionante conclusão da trilogia Matrix.
Eis que, pouco depois do lançamento deste último, soube do próximo projeto dos Watchowskis: Speed Racer. Achei uma escolha bizarra. Mas eu nem imaginava o quão errado eu estava.

Speed Racer é um filme visualmente sensacional. É uma revolução. Pegue o tom cartunesco e surreal de Sin City, adicione aproximadamente 500 cores e luzes por segundo e adicione uma boa dose de psicodelia e uma edição frenética e você tem Speed Racer. Larry e Andy decidiram transportar todo o tom surreal do anime japonês para a tela, e fãs do gênero vão ficar impressionados com a maestria e fidelidade que isso é realizado. A trama é propositadamente rasa, um tom de filme-família (até macaco tem), personagens bem simples e diálogos que poderiam ter sido escritos por uma criança. Incrivelmente, tudo isso para de pé, tamanha é a qualidade visual do filme. Naturalmente, existe uma grande chance de você sair do filme decepcionado, mas a questão é não se focar no que está acontecendo, e sim como isso está sendo apresentado.
Kudos para o elenco acertou perfeitamente o clima das interpretações e não se leva nada a sério, algo que poderia ter azedado toda a mistura. O talentoso Emile Hirsh está carismático como nunca, e perde só para John Goodman, que já trabalhou bastante com os irmãos Coen para saber representar um papel surreal como o do bonachão Pops, o pai de Speed, com graça cativante. Até Matthew Fox consegue se distanciar do papel do Dr. Jack de Lost e adquire uma personalidade própria. Por fim temos Susan Sarandon como a mamãe Racer, e Christina Ricci como a namorada Trixie, toda charmosinha. Inevitavelmente no meio das luzes e cores você acaba sendo sugado para a trama, e quem sabe no final do filme vai estar como eu, vibrando e torcendo como se fosse um garotinho... "Go Speed Racer, Go!"

O Crítico Amador

Depois de muito, resolvi que era hora de fazer esse blog. Sempre que vou ao cinema, saio por aí recomendando os filmes que gostei e massacrando os que não gostei. Queria fazer algo assim já faz um tempo, publicar as minhas impressões sobre os filmes para quem possa interessar (e ouvir as impressões dos outros). Estou longe de ser um especialista no assunto, vou escrever aqui simplesmente como um cara que vai bastante ao cinema e gosta de comentar o que viu. Consequentemente a grande maioria das minhas criticas vão ser filmes de grande circulação, um aspirante amador de critico de cinema, para pessoas que como eu só gostam de ir ao cinema.
Então é isso, espero que meus textos possam ser úteis para alguém e que vocês deixem seus comentários se quiserem, dando uma visão pessoal do filme.