domingo, 11 de maio de 2008

O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream)


Woody Allen pode se rotular, filme após filme, como um frangote patético impotente e neurótico, medroso e estúpido, mas verdade seja dita: Ele tem um pique invejável (digo isso com todo o amor ao velhinho).
Aos 72 anos, o rei do humor judaico continua um dos diretores mais ativos da atualidade. Nas ultimas 4 décadas (!!!) ele nos deu uma média de um filme por ano (eu conferi no IMDb - de 1971 pra cá ele dirigiu nada mais nada menos que 40 filmes, contando o ainda inédito Vicky Cristina Barcelona). Num ritmo desses, é mais do que esperado que nem tudo seja flores, e tivemos por aí alguns deslizes. Scoop, de 2006, foi um deles. Melinda e Melinda, 2004, foi outro. Igual a Tudo na Vida, 2003, mais um. Você começa a se perguntar se são somente deslizes ou se o cara está perdendo a mão. Eu ia entender perfeitamente, 40 anos fazendo filmes freneticamente, a criatividade fica meio gasta.
Mas Woody, o mais improvável de todos, no momento menos esperado, decidiu se reinventar. Ele, que dificilmente saía de Nova York, resolveu fazer um filme ambientado na Inglaterra. E ainda mais, um filme sério. Era Match Point, uma brilhante homenagem a Dostoievsky (não me peçam pra soletrar, eu mal sei a grafia correta do meu sobrenome) e com uma trama cheia de ironias e reviravoltas que só ele saberia fazer.
Três anos depois ele nos traz O Sonho de Cassandra, também ambientado na Inglaterra, e com um tom ainda mais sombrio que Match Point. Foi na mira.
Contudo, ele fraquejou. Pra bem, mas fraquejou. Pitadinhas de humor negro pontuam o filme aqui e ali, lembrando-nos que é o Sr. Allen que estamos assistindo, tirando sarro da vida e do existencial.
A trama é bastante linear e bem amarrada, mas o foco está nos personagens. Ewan McGregor e Colin Farrel são dois irmãos que se transformam drasticamente ao longo do filme, junto com a figura incrível de seu tio, papel que coube a Tom Wilkinson, a surpresa inesperada que quase roubou os holofotes de Clooney em Michael Clayton. McGregor atua impecavelmente, mas o destaque é de Farrel, que havia tempos não mostrava seu potencial preferindo fazer performances opacas em filmes medíocres. Mas não desta vez. Me lembrou de Por um Fio, filme que lançou a carreira dele. Desde lá não via tamanho show do irlandês.
Por fim, vale destacar a atenção à trilha sonora que foi dispensada por Woody. Ele, que ama jazz e até toca clarinete numa banda, usa-se de uma trilha sonora quase tétrica para passar a atmosfera sufocante que estão inseridos seus personagens. E funciona com impressionante precisão. Pra quem gosta de Woody Allen, obrigatório. Pra quem não gosta, vá e aprenda a gostar. O frangote (quem diria) ainda tem gás.

4 comentários:

Giulliana disse...

Ta bem jornalístico, mandou bem, gostei. hehe

Naum sou profunda conhecedora de Woody Allen, mas naum tenho a msm opiniao q vc sobre Scoop. Eu gostei, se a idéia dele era me entreter ele conseguiu. A unica coisa q eu percebi foi q por muitas vezes parecia q o Woody Allen naum se encaixava no contexto, ficava meio jogado, e foi um desperdício de talento nesse sentido, pq ele eh mto engraçado, tem um humor inteligente, e eu acho q ia ser legal ter visto mais disso no filme.
Achei curioso tb esse interesse dele pela Scarlett, sua nova musa - alias, achei q ela sustentou bem o papel, como sempre (gosto mto dela).

Eh isso, seu texto me motivou a pesquisar um pco mais sobre o cineasta, pq eu realmente me toquei q ele eh bom e eu assisti quase nada do q ele ja fez.

=0*

ps: Dostoievsky, a meu ver, foi escrito corretamente. =0)

Vítor Avelino disse...

Match Point é de arrepiar. Woody Allen é incrível. Consumo apetitosamente quase todos seus filmes (menos os abaixo de 7 estrelas). Meu gênero predileto é a comédia e é sempre um prazer apreciar suas obras. Chega a ser difícil acreditar que o diretor/ator de O Dorminhoco acabaria tramando o desfecho cruel de Match Point. Mas meu predileto (se dá pra escolher só um) ainda é Desconstruindo Harry.

Anônimo disse...

Concordo com a Giulliana. Não acho Scoop um deslize. Muito menos depois de Matchpoint, quando o diretor perdeu suas carcterísticas típicas (não que isso tenha tornado o filme pior).
Scoop tem píadas perfeitas, em um tom perfeito, que misturam suspense e comédia de forma fantástica.
Não é um daqueles filmes que muda a sua vida, nem um clássico, mas é muito bom. Principalmente o genial sarcasmo do final, quando o protagonista, ao invés de salvar a mocinha, morre drasticamente em um acidente de carro e é esquecido. Fantástico.
Mas o foco aqui é o Sonho de Cassandra. Fabuloso. O filme realmente me interessou, e como já havia comentado com o "Crítico Amador", Colin Farrel é fenomenal. Eu nunca o tinha visto atuar dessa forma, e foi encantador.
Do mais, a história é boa, intrigante. Também não chega a ser um clássico que muda a vida de ninguém, e é muito parecido com Matchpoint, no entanto, é um ótimo filme, digno de ser assistido várias vezes.
Somente me questiono se os próximos filmes sérios de Allen sempre cairão na temática "Crime e Castigo"...
De qualquer forma, o diretor continua um grande mestre do cinema.

DT disse...

Na minha opinião, mesmo o Woody Allen ruim já é melhor que muita coisa e eu assisto e saio feliz. Scoop como um filme por si só é bonzinho...

Mas não consegui deixar de sair do Scoop com uma impressão de que... já tinha visto aquilo antes. Acho que sim o fato de ter sido depois de Match Point tornou o filme pior. Depois de ver um Woody completamente diferente, foi frustrante ver a métrica típica dele, sem nenhuma novidade.