quinta-feira, 31 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)

*Aviso: Post contém spoilers do filme.*

Quando um filme começa a receber muito hype por um determinado aspecto em particular, especialmente enquanto ainda em fase de produção, não é incomum que tudo comece a rodar em volta do foco, e o resultado final seja algo em que o todo se sustenta por um único fator, e em geral o filme acaba por ruir. Esse era o meu medo quando, com Heath Ledger ainda vivo, comecei a escutar boatos de que ele estava fazendo um trabalho com o personagem Joker que rivalizava seu último antecessor no papel, o naturalmente lunático Jack Nicholson. Só para tirar isso do caminho, não acho a discussão sobre qual Coringa é melhor muito válida. Dois filmes feitos com quase 20 anos de distância um do outro, as mudanças que aconteceram no cinema e no mundo tornaram as duas versões de um mesmo personagem incrivelmente distantes. Depois da morte de Ledger, o hype aumentou ainda mais, alimentado pelos boatos de que o ator teria ficado mentalmente perturbado com o personagem e isso teria o levado a sua morte. A atuação dele é tudo isso que dizem e mais, e consigo entender perfeitamente Michael Caine quando disse que, na cena em que o Coringa vai até a casa de Wayne e se depara com Alfred, Caine que até então não conhecia Ledger ficou tão assustado que esqueceu suas falas. Heath Ledger teve a sorte de encarnar um dos personagens mais interessantes da mitologia contemporânea, fez isso com maestria e seu legado não poderia ter sido encerrado de maneira melhor. Mas voltando ao filme.

Como de costume, não poderia ter ficado mais feliz de ver que o Coringa de Ledger é a cereja no topo, o prato principal de uma refeição cinematográfica deliciosa. Depois do 11/09, o cinema Hollywoodiano abriu espaço novamente para os super-heróis. Novas abordagens, e um mundo muito mais denso e simbólico, personagens mais complexos, a figura do herói (e consequentemente do vilão) deixou de ser algo plano e ganhou vida, motivos, dúvidas.

Cavaleiro das Trevas é um jogo de opostos, e você tem em um extremo Batman, um personagem atormentado com o fardo da ordem, sério, sombrio, e no outro extremo temos o Coringa, o insano vilão que não parece ter uma única preocupação na cabeça, que é o símbolo do caos. Desde a apresentação com cores vibrantes, personalidade, até seus valores, um é a versão espelhada do outro, e muitas vezes acabam por fazer a mesma coisa em sentidos inversos. Ambos tentam inspirar a população por meio de exemplos, seja de que a ordem existe ou que o ser humano é naturalmente mal. Ambos têm valores morais que impedem que eles se anulem mutuamente. Tudo isso é explicitado em um sensacional diálogo entre os dois, em que o Coringa está de cabeça para baixo e Batman de pé, e através de um efeito de câmera vemos a poesia que está por trás da cena. (Aliás, todas as cenas em que Batman e o Coringa conversam são pérolas. Pensando melhor, todas as cenas do Coringa são pérolas). No meio do conflito está Harvey Dent, o procurador geral de Gotham City brilhantemente interpretado por Aron Eckhart, que descreve um arco de queda, nesse caso, das trevas até a luz, e acaba literalmente dividido entre o bem e o mal. Sua moeda, que como se descobre mais pra frente é muito apropriada, representa seu personagem. Inicialmente uma figura de ordem, íntegra, tanto Harvey quanto a moeda "perdem" um de seus lados, e o que sobra no lugar é o caos plantado por (e não poderia ser outro) Coringa. A simbologia de Harvey é talvez a mais evidente, um homem com fortes valores morais e tudo a perder de um lado, e de outro um homem destruído, insano levado a seus limites por uma perda imensa. Existe muito mais para se ver em Batman, desde atuações incríveis ainda não citadas, como as de Gary Oldman e Michael Caine, até objetos e símbolos que podem passar despercebidos. Um filme poético e profundo, porém um tanto quanto longo. Ainda assim, o tipo de filme que vale a pena rever quantas vezes quiser.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Wall-E

Não deixe o fato de Wall-E ser uma animação da Pixar te enganar: esse é um belíssimo filme. Acima de tudo, e o principal motivo pelo que se deve assistir, é algo diferente. Não consigo nem imaginar o tamanho do desafio de criar uma trama dentro das limitações da temática do filme. Os dois protagonistas não conseguem falar mais do que uma ou duas palavras, e a primeira vista parece difícil colocar linguagem corporal num robô em forma de caixa. A trama é incrivelmente simpática e ao mesmo tempo pode-se dizer que toca em questões relevantes da nossa sociedade. É uma visão bastante pessimista do futuro, porém tudo é apresentado com leveza e bom humor. Wall-E é um filme obrigatório, que teve um lançamento bastante prejudicado no Brasil pelo inferior Kung-Fu Panda (criticarei na semana que vem) mas que ainda se pode encontrar em alguns poucos cinemas da cidade em cópias legendadas (não assisti a versão dublada, mas acredito que não é TÃO insuportável assim). Independente de quem você é ou qual o seu propósito no cinema, Wall-E é uma escolha 100% segura. Uma animação imperdível.