*Aviso: Post contém spoilers do filme.*
Quando um filme começa a receber muito hype por um determinado aspecto em particular, especialmente enquanto ainda em fase de produção, não é incomum que tudo comece a rodar em volta do foco, e o resultado final seja algo em que o todo se sustenta por um único fator, e em geral o filme acaba por ruir. Esse era o meu medo quando, com Heath Ledger ainda vivo, comecei a escutar boatos de que ele estava fazendo um trabalho com o personagem Joker que rivalizava seu último antecessor no papel, o naturalmente lunático Jack Nicholson. Só para tirar isso do caminho, não acho a discussão sobre qual Coringa é melhor muito válida. Dois filmes feitos com quase 20 anos de distância um do outro, as mudanças que aconteceram no cinema e no mundo tornaram as duas versões de um mesmo personagem incrivelmente distantes. Depois da morte de Ledger, o hype aumentou ainda mais, alimentado pelos boatos de que o ator teria ficado mentalmente perturbado com o personagem e isso teria o levado a sua morte. A atuação dele é tudo isso que dizem e mais, e consigo entender perfeitamente Michael Caine quando disse que, na cena em que o Coringa vai até a casa de Wayne e se depara com Alfred, Caine que até então não conhecia Ledger ficou tão assustado que esqueceu suas falas. Heath Ledger teve a sorte de encarnar um dos personagens mais interessantes da mitologia contemporânea, fez isso com maestria e seu legado não poderia ter sido encerrado de maneira melhor. Mas voltando ao filme.
Como de costume, não poderia ter ficado mais feliz de ver que o Coringa de Ledger é a cereja no topo, o prato principal de uma refeição cinematográfica deliciosa. Depois do 11/09, o cinema Hollywoodiano abriu espaço novamente para os super-heróis. Novas abordagens, e um mundo muito mais denso e simbólico, personagens mais complexos, a figura do herói (e consequentemente do vilão) deixou de ser algo plano e ganhou vida, motivos, dúvidas.
Cavaleiro das Trevas é um jogo de opostos, e você tem em um extremo Batman, um personagem atormentado com o fardo da ordem, sério, sombrio, e no outro extremo temos o Coringa, o insano vilão que não parece ter uma única preocupação na cabeça, que é o símbolo do caos. Desde a apresentação com cores vibrantes, personalidade, até seus valores, um é a versão espelhada do outro, e muitas vezes acabam por fazer a mesma coisa em sentidos inversos. Ambos tentam inspirar a população por meio de exemplos, seja de que a ordem existe ou que o ser humano é naturalmente mal. Ambos têm valores morais que impedem que eles se anulem mutuamente. Tudo isso é explicitado em um sensacional diálogo entre os dois, em que o Coringa está de cabeça para baixo e Batman de pé, e através de um efeito de câmera vemos a poesia que está por trás da cena. (Aliás, todas as cenas

