terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)


Finalmente, tive prazer de assistir ao novo filme de Fernando Meirelles em sua pré-estréia aqui no Brasil. O filme, que emocionou José Saramago em sua premiere em Lisboa, é a reiteração de que Meirelles é um dos grandes nomes mundiais no que diz respeito a fotografia cinematográfica. Desde o icônico Cidade de Deus, o estilo de filmagem do diretor brasileiro caracteriza-se por influir direta e ativamente na própria narrativa, explorando diferentes recursos visuais para enriquecer a experiência do espectador. A preocupação com como construir cenas e apresentá-las ao publico é cuidadosamente trabalhada, e redefine todo o contexto e o sentimento de uma obra. Na humilde opinião do autor deste texto, este é o ponto visceral da arte de fazer cinema.
Porém nem tudo são flores, e a literatura e o cinema são meios completamente distintos. Toda adaptação de um meio para outro é de algum modo enriquecida e de algum modo empobrecida. O livro de Saramago, no qual o filme é inspirado, é uma das leituras mais belas e delicadas que tive o prazer de fazer. Não estaria arriscando uma breve critica literária se não fosse relevante para a análise do filme, e neste caso a sensação de que muito do livro está sendo perdido na adaptação, de que toda a poesia densa que é a escrita de Saramago não consegue ser transmitida na tela, talvez acabará por muitas vezes deixando, naqueles que tiveram o prazer de ler o livro antes de ver o filme, uma sensação de vazio que pode acabar prejudicando o filme como um todo. Meirelles faz uma adaptação bastante fiel ao livro, e talvez nisso esteja o maior problema do filme.
Tudo isso porém é esperado, e o filme na análise conjunta se mantém de pé, apoiado não só na direção criativa de Meirelles, mas também em atuações sólidas e, acima de tudo, adequadas. Julianne Moore está em harmonia perfeita com seu personagem, e realmente parece sentir tudo aquilo que transmite. Mark Ruffalo, Danny Glover e Alice Braga exprimem tanta personalidade aos seus personagens quanto eles realmente têm no livro, fazendo uma caracterização bastante fiel e segura dos mesmos. A trama está, em uma relação metalinguística com a habilidosa câmera, nebulosa e obscura, e é curiosamente a parte que mais se fragiliza, pois não tem todas as raízes e desenvolvimentos que a amarram no livro. Ao todo, é um filme tecnicamente muito bem executado e relativamente profundo, mas que não deve agradar aos espectadores mais acostumados ao formato tradicional de produções Hollywoodianas (e, valha-se de nota, apesar de ser uma produção de grande orçamento, o filme não possui ligações com Hollywood).
Parabéns a Fernando Meirelles por mais uma vez conquistar meu respeito e admiração.

domingo, 7 de setembro de 2008

Trovão Tropical (Tropic Thunder)


Ben Stiller não é dos meus atores de comédia favoritos. Ele tem seus momentos, mas não considero ele um cara muito engraçado. Como diretor, até então ele havia sido ligeiramente pior, com o desastroso "O Pentelho" de 1996, é talvez a maior mancha negra na carreira de Jim Carey, então o grande nome da comédia, que depois desse filme decidiu arriscar algumas coisas mais sérias. Stiller então começou a entrar no campo onde ele realmente brilha: A paródia. Sua sátira do mundo da moda, Zoolander, ainda que deixe muito a desejar, tem seus momentos. Com Trovão Tropical, ele decide parodiar a si mesmo, e toda a máquina de Hollywood. Com roteiro também assinado por ele o filme era bastante promissor. O resultado é uma trama mediocre, porém com sacadas inteligentes e atuações de destaque, como Robert Downey Jr. e Tom Cruise. Ambos estão, e temo que o termo ainda seja um pouco eufemístico, BASTANTE distantes de seus papéis habituais. O filme vale a sessão só por esses dois. Jack Black, um grande nome da comédia, tem um papel de pouco destaque e fica apagado por boa parte do filme. Embora o filme nunca chegue a ter uma cena ou tirada verdadeiramente marcante, é uma ótima diversão e uma opção agradável para quem gosta de um humor satírico e politicamente incorreto.

O Procurado (Wanted)


Quão rápido um filme consegue passar de um agradável entretenimento de domingo a tarde a uma experiencia cinematográfica constrangedora? A resposta: O tempo que demora para o espectador perceber que o filme se leva a sério. O clima surreal da trama é muito bem digerido, até o ponto em que o filme começa a tentar passar uma mensagem, em meio a balas entortadas, carnificina e ação frenéticas. A lógica do filme é contraditória dentro dela mesma, e a impressão que me passou é que nem os roteiristas nem o diretor tinham uma idéia clara do que eles queriam fazer. Não há muito o que dizer do filme, James McAvoy está tentando seu melhor para se estabelecer como um novo rosto de Hollywood, o que é valido talvez pois já provou ser um ator talentoso. Angelina Jolie está mais uma vez no papel da bela e perigosa mulher que ja vimos tantas vezes antes. Talvez por estar tão acostumada com o papel, consegue uma atuação chamativa. Morgan Freeman é o Morgan Freeman de sempre, e também me deixou com a sensação de que já tinha visto aquele personagem antes. Se a ideia do programa é ver cenas de ação inacreditáveis, O Procurado funciona. Mas para qualquer outro efeito, passe longe.