
Finalmente, tive prazer de assistir ao novo filme de Fernando Meirelles em sua pré-estréia aqui no Brasil. O filme, que emocionou José Saramago em sua premiere em Lisboa, é a reiteração de que Meirelles é um dos grandes nomes mundiais no que diz respeito a fotografia cinematográfica. Desde o icônico Cidade de Deus, o estilo de filmagem do diretor brasileiro caracteriza-se por influir direta e ativamente na própria narrativa, explorando diferentes recursos visuais para enriquecer a experiência do espectador. A preocupação com como construir cenas e apresentá-las ao publico é cuidadosamente trabalhada, e redefine todo o contexto e o sentimento de uma obra. Na humilde opinião do autor deste texto, este é o ponto visceral da arte de fazer cinema.
Porém nem tudo são flores, e a literatura e o cinema são meios completamente distintos. Toda adaptação de um meio para outro é de algum modo enriquecida e de algum modo empobrecida. O livro de Saramago, no qual o filme é inspirado, é uma das leituras mais belas e delicadas que tive o prazer de fazer. Não estaria arriscando uma breve critica literária se não fosse relevante para a análise do filme, e neste caso a sensação de que muito do livro está sendo perdido na adaptação, de que toda a poesia densa que é a escrita de Saramago não consegue ser transmitida na tela, talvez acabará por muitas vezes deixando, naqueles que tiveram o prazer de ler o livro antes de ver o filme, uma sensação de vazio que pode acabar prejudicando o filme como um todo. Meirelles faz uma adaptação bastante fiel ao livro, e talvez nisso esteja o maior problema do filme.
Tudo isso porém é esperado, e o filme na análise conjunta se mantém de pé, apoiado não só na direção criativa de Meirelles, mas também em atuações sólidas e, acima de tudo, adequadas. Julianne Moore está em harmonia perfeita com seu personagem, e realmente parece sentir tudo aquilo que transmite. Mark Ruffalo, Danny Glover e Alice Braga exprimem tanta personalidade aos seus personagens quanto eles realmente têm no livro, fazendo uma caracterização bastante fiel e segura dos mesmos. A trama está, em uma relação metalinguística com a habilidosa câmera, nebulosa e obscura, e é curiosamente a parte que mais se fragiliza, pois não tem todas as raízes e desenvolvimentos que a amarram no livro. Ao todo, é um filme tecnicamente muito bem executado e relativamente profundo, mas que não deve agradar aos espectadores mais acostumados ao formato tradicional de produções Hollywoodianas (e, valha-se de nota, apesar de ser uma produção de grande orçamento, o filme não possui ligações com Hollywood).
Parabéns a Fernando Meirelles por mais uma vez conquistar meu respeito e admiração.


